sábado, 15 de abril de 2017

O Prisioneiro: Parte II

      

      
      O tempo das tempestades chegou. A água caía gelada do céu, perfurando folhas e derrubando galhos. As nuvens eram negras como a noite e rugiam, como que avisando que ninguém em lugar nenhum estaria a salvo. No chão as águas corriam frenéticas, arrastando folhas, galhos, tocas e animais presos. Neste tempo, muitos morriam, homens e animais, jovens e velhos. A floresta se renovava para renascer depois, como sempre fora desde que o tempo era tempo e, quem sobrevivesse ás chuvas, deveria agradecer á misericórdia das águas e das folhas.
      Mas, até que a água matasse a sede da terra, não haveria paz. Para aquele que acredita que a grande floresta é uma harmonia de elementos, onde terra, água, vento, plantas e animais vivem em conjunto, está aqui a prova de que isto é um grande engano. Na tempestade, o caos reina absoluto, devolvendo á terra os seres que a ela pertencem, sem misericórdia e sem critério. Na tempestade o dia e a noite se confundem, os seres não dormem com medo de serem arrastados e não comem pois não podem abandonar seus abrigos.
       Esta tempestade foi cruel para mim. Sem um lar, uma caverna onde eu pudesse me manter seco e, sem um olho, tudo o que consegui fazer foi fincar minhas garras na árvore mais alta que encontrei, ensopado e com a visão embaçada. Meus músculos doíam, meu estômago rugia e castigava minhas entranhas, meu coração pulsava forte e eu só conseguia pensar em morte. A água caía do céu implacável, como espinhos de gelo, abrindo feridas antigas e criando novas. Sem dó, sem perdão, eu ouvia os ginchos dos prestes a morrer na correnteza por entre os rugidos da água e dos trovões.
       Ás vezes a tempestade dava uma trégua, deixando que a água caísse suave como as lambidas de uma mãe e o sol abria seu olho para aquecer aqueles que ainda respiravam. A grande floresta era a maior predadora de todas, e o alívio de sua crueldade servia somente para que os animais mais ingênuos saíssem de seus abrigos em busca de comida, para morrer quando a tempestade voltasse com toda a força.
      Desta vez, quando a água descansou em seu castigo e eu pude ver mais claramente com meu único olho, percebi que na árvore em que eu estava, em um buraco em seu tronco, havia um ninho de corujas. Estas aves não eram ameaça alguma para mim, mas senti-me tolo por não tê-las notado antes. Caso fosse outro animal,  como uma cobra, eu teria visto meu fim ali, naquele galho velho, que pingava seiva grossa conforme eu o arranhava.
       Eu não havia percebido a coruja, mas a coruja havia me visto há muito tempo. Dois olhos enormes e amarelos me observavam aterrorizados, sem ousar movimento algum, a não ser nervosos arranhões com suas pequenas garras no chão que tocavam.   A coruja temia pelos ovos que protegia e estava ensopada mesmo dentro de seu abrigo, seu pequeno coração batia tão forte que estava prestes á explosão. Seus olhos denunciavam um fato, como se compartilhássemos o mesmo pensamento: a coruja seria minha presa, seus ovos também, e não sobrariam nem seus ossos para deixar no mundo a sua memória.      
       Era verdade que a coruja tinha outra opção: abandonar seu ninho, fugir de lá e arriscar a sua sorte na tempestade, mas seria totalmente contra a sua natureza abandonar seus ovos e, mesmo que a coruja não tivesse chance alguma contra uma pantera, era mais provável que ela morresse defendendo o seu ninho a abandoná-lo. Trocamos olhares por um longo tempo e, mesmo que afogada em medo, a coruja tinha um olhar que era como um abismo, e era capaz de inspirar medo até numa pantera que ousasse encará-lo por muito tempo.
                Quando um ser encara um caminho intransponível e tanto seus instintos quanto o decorrer dos fatos o levam invariavelmente á morte, qual saída lhe resta para sobreviver? Qual força, qual elemento seria capaz de dobrar uma fatalidade, um evento que pelas leis do universo e da grande floresta deve acontecer? Como evitar que algo que já está escrito nas linhas do destino?
         Se algo neste mundo tinha as respostas para tais perguntas, talvez esta coisa fossem olhos de coruja. Os grandes olhos amarelados, me encarando com um misto de pavor, frenesi e ódio, mandavam uma mensagem diretamente ao meu espírito, causando arrepios em minha coluna.
        Assim, da mesma forma que meu corpo era mais poderoso que o da coruja e minhas presas capazes de decepara pequena ave como folhas secas, seus olhos abismais, superiores á minha visão ferida, me ameaçavam  e me oprimiam da mesma forma. Assim, sem emitir som algum, a coruja falou, através de seus olhos e de seu espírito:
    “No dia de hoje a grande floresta me faz encarar a morte nos olhos.  Ainda que seja direito meu lutar, devo aceitar sucumbir perante a um animal mais forte. Esta é a lei do mundo. Mas acredite, predador, como você, eu também caço á noite. Hoje eu encaro a morte, mas quando a chuva descansar, você estará fraco, faminto e cansado. Com um olho morto, você não será capaz de enxergar todos os seus inimigos, que se esgueirarão á noite para trazer á você, o que hoje você quer trazer para mim”.
          A coruja cessou seu diálogo, girando seu pescoço para observar seus pequenos ovos, aconchegados na palha úmida. A ave deixou a sua mensagem fazer efeito sobre mim, permitindo que eu compreendesse a razão de seus argumentos. É verdade que a lei era clara, o mais fraco deveria cair perante o mais forte, mas quem hoje é forte amanhã é fraco e, no final, todos caem e só a floresta fica. Era verdade, minha visão não era mais perfeita e, com um olho só, falhava frequentemente. Falhei em enxergar a própria coruja e nada me garantia que eu conseguiria ficar atento, o tempo todo, á todos os predadores que viriam surgir, famintos, após o fim da tempestade. Como a coruja havia dito, a morte surgiria para mim assim como surgiu para ela: de repente e implacável.
       Quando a ave viu que eu havia aceitado a razão de suas frases, continuou seu discurso quase hipnótico: “ Mas você decidir fazer diferente neste dia e não seguir a lei da grande floresta, mas sim a sua própria vontade em poupar minha vida, então retribuirei com minha gratidão e, enquanto eu viver, meus dois olhos serão como se fossem seus, e não haverá perigo para você que o pegue desprevenido”.
       Nunca antes presenciei ou foi contado a mim pelos meus ancestrais um acontecimento como este. Eu poderia dizer, pelo o que eu conheci e pelos lugares que passei, pelos animais e homens que tirei a vida, que nunca vi ou ouvi um animal propondo que não cumpríssemos a lei da grande floresta. Era algo inimaginável, fora das fronteiras da realidade, como propor que uma pantera caçasse ao dia e uma águia caçasse de noite. Mas, pensando além das fronteiras, o que impediria que uma águia caçasse á noite, se esta fosse sua vontade? Se poupar uma coruja significava sobrevivência no dia de amanhã, por que não?
      Então, após alguns minutos em silêncio, enquanto nossos olhos criados para enxergar á noite se encaravam e se analisavam e a tempestade rugia e castigava com frias agulhas tudo o que tocava, eu finalmente tomei minha decisão. Sem muita certeza do que eu dizia, sem saber muito bem como aquilo o que a coruja dizia funcionaria e, mais movido pelas saudades de minha visão completa do que por qualquer outra coisa, eu disse: “Eu aceito”. E então o ataque que tiraria a vida da coruja e nunca deixaria seus filhotes viverem não aconteceu. Pela força da minha vontade, suprimi a fome que eu sentia, acreditando que a ave me agradeceria como prometeu.
       Naquele momento, foi como se a grande floresta estivesse viva e nos observando. E, por termos concordado em descumprir a sua lei, ela se enfureceu. O céu ficou cada vez mais escuro e a água era tão fria que se transformou em gelo. Raios eram cuspidos das nuvens e atingiam os topos das árvores, que se arrebentavam de dentro para fora e cheiravam a queimado mesmo em uma noite tão fria. Neste momento, uma das árvores atingidas por um raio jogou um de seus galhos na minha direção, me atingindo e me atirando ao chão, onde a correnteza enlameada era revoltosa e irresistível.
       A coruja que me prometeu seus olhos nunca conseguiu cumprir sua promessa. Eu nunca soube se ela realmente faria o que disse ou não. Naquele momento, isto já estava fora de questão. Tudo o que eu conseguia pensar era em debater minhas patas e tentar  nadar para a superfície em busca de ar, ou me agarrar a algum tronco que pudesse suportar meu peso. Mas não consegui: Eu estava fraco e faminto e estava cansando-me rápido. A água gelada começava a tirar o calor do meu sangue, tirando todas as forças de minha pata.
      Antes do fim, numa mistura de delírio com a confusão de meu desespero e da correnteza, pensei ter visto uma imagem se formando nas gotas da tempestade, assim como se forma um arco íris pela interação da luz do sol e das gotículas de água. Pensei ter visto a mesma imagem que vi antes: a de um grande felino que me observava. Eu soube o que aquilo significava: era o fim de minha jornada e, em breve, somente meus ossos fariam a minha memória. Com os músculos em brasa mas com a pele congelando, com os pulmões cheio de água e a cabeça ficando leve com o torpor da morte, eu afundei na água, meu coração parou e eu já não respirava mais.
        Desde filhote, eu sabia que quando a vida deixava aqueles que viviam, este não era o fim. A grande floresta permitia que ficassem em algum lugar entre a terra e o grande vazio absoluto, para aparecer para seus descendentes e guia-los em sua jornada ou, talvez, para serem livres como jamais foram enquanto havia calor neles. Aqueles cujos ossos lhes faziam a memória apareciam nos vapores do pântano, nos feixes de luz do sol e no brilho das estrelas. E aqueles que se aproximavam o suficiente da fronteira entre a vida e a morte, conseguia enxerga-los.

        Eu estava preparado para atravessar a fronteira e abandonar o mundo da terra, da água, da pedra e das plantas. Como todos nós, animais da grande floresta, eu sabia que a morte chegaria a mim como o sol chega de manhã e a lua chega ao anoitecer. Quando afundei na água, eu não sentia medo da morte. Mas eu sabia que a grande floresta havia se enfurecido comigo, que ela havia me amaldiçoado de alguma forma. Eu estava preparado para morrer, mas não estava preparado para o que viria a seguir. 

terça-feira, 4 de abril de 2017

O Prisioneiro : Parte I


           Eu sou Tai-Zhian, uma pantera que nasceu, cresceu, caçou e matou nesta grande floresta, assim como meu pai antes de mim e meus ancestrais antes dele, desde que esta floresta fincou raízes na terra e espalhou folhas mortas, como um grande tapete, até onde o horizonte alcança.
                Desde filhote foi-me ensinado que o lar em que nasci não era um lugar benevolente. Cobras e escorpiões faziam de seu lar troncos podres, predadores esgueiravam-se á noite para pegar suas vítimas dormindo e plantas envenenavam criaturas desavisadas, jogando seus corpos ao chão em instantes, para descansarem eternamente ao lado de suas raízes.
              Da ninhada em que nasci, dos sete irmãos que tive, somente dois chegaram á idade adulta. Alguns não resistiram ao mau tempo, outros caíram de precipícios e outros sumiram para nunca mais voltarem. Na floresta, um dia acontece de cada vez, alguns com alimento e outros em uma luta pela sobrevivência, outros na tentativa de curar as feridas do dia anterior.
         Mas eu, Tai-Zhian, um filhote marcado para sucumbir como os outros, fui capaz de sobreviver e chegar á idade adulta. Não sei se tive sorte ou se os ventos da floresta me favoreceram, mas cheguei ao lugar que me fora prometido: tornei-me um predador, no topo da cadeia alimentar da grande floresta, abaixo somente das nuvens de tempestade e das grandes árvores que cresciam apontando para o céu.
      Um predador é muito diferente de um herbívoro aos olhos da natureza. Enquanto que os animais pacíficos comungam com o ambiente, aparando a grama e as folhas próximas ao chão, espalhando sementes, vivendo bem quando o sol brilha quente e sofrendo quando o inverno chega e murcha as plantas, casados para todo o sempre com o ambiente que os alimenta, refletindo e sendo refletidos por este ambiente, os predadores não são assim.
       A comunhão do predador com a natureza está dentro de si mesmo. A aliança do predador com a força que o criou está no tamanho de seus dentes, na força de suas garras, na potência de seus músculos, no calor de seu sangue e na esperteza de sua mente. A grande floresta entrega ao predador tudo o que ele precisa para prevalecer, sendo da responsabilidade dele e, somente dele, ser vitorioso ou não. A verdade é que a grande floresta faz isso só para provar que, no final, é ela que sempre vencerá.
       A grande floresta não precisa dos predadores para manter sob controle seus rebanhos de herbívoros. Esta ideia é uma mentira, feita para soar que os predadores possuem o seu propósito no pulsar de vida da grande floresta. A verdade é que a grande floresta controlaria seus herbívoros sem nós, sem nenhuma dificuldade. Caso contrário, porque passamos mais tempo lutando uns contra os outros, por território, fêmeas ou qualquer motivo, do que de fato caçando algum alimento?
        Não que eu me dignasse a perguntar para a grande floresta qual papel que ela esperava que eu desempenhasse. Minha vida, como um adulto, era dedicada a espalhar sangue e enfeitar com ossos o chão da grande floresta. Era para isto o que eu vivia. Meu rugido fazia os pássaros voarem e eu corria tão rápido que era como um borrão negro na confusão de galhos e folhas que era o meu lar e então, em poucos segundos, uma mancha de sangue dava cor ao chão marrom e um macaco, uma codorna ou até um alce davam adeus á vida que lhes foi dada para voltarem a ser uma parte da terra, dos troncos, da folha e do ar.
       Eu devolvia á floresta o que lhe pertencia e tomava carne e sangue como pagamento. A condenação destes animais era cruzar o meu caminho, fazer sons para chamar minha atenção, brincarem alegres sob o sol quente sob a minha vista.
        Uma vez, um homem, uma das criaturas mais distorcidas criadas pela grande floresta, vestido de peles e com uma lança de madeira nas mãos, caminhava por entre os troncos do território que me pertencia. Seus passos faziam estalar galhos, ossos de sua roupa faziam sons de chocalho e seu cheiro de suor era forte e rançoso, seu hálito exalava o fedor de dentes podres e carregava consigo coelhos mortos, cheirando a sangue fresco e quente. Espreitei a criatura por um longo tempo e, quando ele me viu, me atacou imediatamente. Naquele dia, o homem tomou de mim um olho, mas eu tomei dele a vida. Mordi sua garganta com força, arrancando metade de seu pescoço e deixando sua cabeça pendente enquanto ele se afogava com o próprio sangue.
        O corpo humano estirado na clareira, em meu território, envolto de uma gloriosa poça de sangue, fedendo putrefação de uma forma horrível como só um ser humano é capaz de fazer, era o sinal da minha luta e de minha vitória. Afastou outras panteras e predadores de meu território por muitas luas, até que os carniceiros limpassem toda carne e deixassem só os ossos como memória da criatura que aquilo um dia fora.
      O cadáver do homem era uma boa decoração para o meu território, mas eu sabia que o que espantava os outros predadores não era o fato de eu ter tirado a vida daquela criatura, mas sim o fato de que aquela criatura era uma criatura que vivia em bandos e, eventualmente, outros viriam procurar pelo seu companheiro morto. E foi exatamente o que aconteceu: muitos vieram, todos com muitas armas, fogo e armadilhas, atentos á ameaça. Após poucas noites, o homem que tomara de mim meu olho tomou de mim, mesmo após a sua morte, o território que me pertenceu e eu fui obrigado a abandonar meu lar.
        Por muito tempo, vaguei a esmo, ferido. Moscas pousaram nos meus olhos enquanto eu dormia e eu podia ver as larvas se remexendo enquanto comiam minha carne morta, pelo canto do meu olho bom. Meu corpo começou a queimar por dentro e eu podia sentir o inchaço do meu rosto pulsando e minando pus, que se agarrava e secava aos pelos, lançando um cheiro azedo que atrapalhava meu olfato e chamava a atenção de carniceiros, que chegavam cheios de fome e fingiam estar fuçando na terra quando viam que eu ainda estava vivo. Talvez um destes viesse me atacar á noite.
        Doente e febril, procurei uma lagoa ou poça de água qualquer para tirar de mim o  mau cheiro e o calor da doença. Por fim encontrei uma pequena fonte, onde a água extremamente clara escorria pacientemente por entre as pedras e pequenos peixinhos nadavam uns com os outros e se escondiam em baixo da terra quando uma fruta, ou galho, caía na água.
      Havia uma brecha nas folhas das árvores, por onde entrava um feixe de luz do sol, fazendo visíveis os vapores da água saindo da fonte e ondulando pelo ar espesso do chão da floresta. As curvas criadas pelo vapor d’água criavam uma forma sutil de um grande felino, semelhante a uma nuvem tomando uma forma qualquer, mas com muito mais movimento e sem dissipar a imagem que ali formava.
      Ás vezes, quando nossos olhos estão bem próximos do véu que separa este mundo do outro, é possível ver de relance aqueles que já passaram para o outro lado.  É algo que pode parecer uma alucinação causada pela febre e pela fraqueza, mas mais sutil, exigindo atenção para que se perceba; diferentemente de um delírio, que salta aos olhos sem que se deseje isto. A forma eriçava meus instintos como faria um animal muito próximo tentando passar desapercebido  e me olhava com seus olhos de fumaça, mas que pesavam como duas grandes rochas.
       Sem emitir um som ou palavra, a sombra nos vapores moveu-se, andando calmamente, deu algumas voltas ao redor de si mesma com calma e se sentou. A imagem nada disse, não emitiu nenhum som ou fez algum gesto, mas sua tranquilidade diante da minha fraqueza, tão diferente de como um animal que respira se comportaria, pareceu me dizer, como uma intuição diria, que meu olho se curaria e a febre em minhas entranhas se acalmaria.
       A imagem observou-me enquanto eu pulava na fonte e tirava de mim a sujeira e os vermes de meu olho ferido. A água fria aliviou quase instantaneamente o calor dentro de mim. Um filhote jamais saberia o poder que água limpa e fresca tem sobre as doenças e ferimentos cheios de pus. Predadores grandes, como eu, não costumam morrer por conta de ataques de outros animais, mas morrem por se ferirem onde não conseguem se limpar, então bebem água suja de terra e putrefação, acabando cheio de vermes muitas vezes menores que insetos dentro de seu sangue, que os comem por dentro.  Mas a água limpa, como a daquela fonte, era uma das melhores coisas para manter a doença e os pequenos vermes afastados. Pensando bem, agora, me pergunto se a água limpa e seus vapores tinham alguma relação mais profunda com aquela imagem que se formava por entre o feixe de luz do sol e a fumaça daquela fonte.
       Mesmo após um longo tempo repondo a água de meu corpo e depois me limpando e sentir que eu estava me recuperando por conta disto, a imagem não desapareceu. Não se moveu para capturar minha atenção, esperando que eu me dignasse a observá-lo novamente. Quando eu fiz, a imagem simplesmente olhou para o alto, para as nuvens do céu e então, desta vez, se dissipou no vapor para nunca mais voltar.
      Acompanhei seu olhar e pude ver nuvens negras e cheias ao longe, cuspindo raios poderosos que não conseguiam mais segurar dentro de si. Desta vez a sombra não fez gestos que sugeriam que tudo ficaria bem. Pelo contrário, seu breve gesto de apontar o rosto para cima me causou um arrepio contrastante com a febre que eu sentia, e o mau presságio que aquele animal que já não mais respirava me deu, fez com que eu tivesse pesadelos durante toda a noite. 

Agradeço á todas as pessoas que leram meus contos. Att, R.R