terça-feira, 4 de abril de 2017

O Prisioneiro : Parte I


           Eu sou Tai-Zhian, uma pantera que nasceu, cresceu, caçou e matou nesta grande floresta, assim como meu pai antes de mim e meus ancestrais antes dele, desde que esta floresta fincou raízes na terra e espalhou folhas mortas, como um grande tapete, até onde o horizonte alcança.
                Desde filhote foi-me ensinado que o lar em que nasci não era um lugar benevolente. Cobras e escorpiões faziam de seu lar troncos podres, predadores esgueiravam-se á noite para pegar suas vítimas dormindo e plantas envenenavam criaturas desavisadas, jogando seus corpos ao chão em instantes, para descansarem eternamente ao lado de suas raízes.
              Da ninhada em que nasci, dos sete irmãos que tive, somente dois chegaram á idade adulta. Alguns não resistiram ao mau tempo, outros caíram de precipícios e outros sumiram para nunca mais voltarem. Na floresta, um dia acontece de cada vez, alguns com alimento e outros em uma luta pela sobrevivência, outros na tentativa de curar as feridas do dia anterior.
         Mas eu, Tai-Zhian, um filhote marcado para sucumbir como os outros, fui capaz de sobreviver e chegar á idade adulta. Não sei se tive sorte ou se os ventos da floresta me favoreceram, mas cheguei ao lugar que me fora prometido: tornei-me um predador, no topo da cadeia alimentar da grande floresta, abaixo somente das nuvens de tempestade e das grandes árvores que cresciam apontando para o céu.
      Um predador é muito diferente de um herbívoro aos olhos da natureza. Enquanto que os animais pacíficos comungam com o ambiente, aparando a grama e as folhas próximas ao chão, espalhando sementes, vivendo bem quando o sol brilha quente e sofrendo quando o inverno chega e murcha as plantas, casados para todo o sempre com o ambiente que os alimenta, refletindo e sendo refletidos por este ambiente, os predadores não são assim.
       A comunhão do predador com a natureza está dentro de si mesmo. A aliança do predador com a força que o criou está no tamanho de seus dentes, na força de suas garras, na potência de seus músculos, no calor de seu sangue e na esperteza de sua mente. A grande floresta entrega ao predador tudo o que ele precisa para prevalecer, sendo da responsabilidade dele e, somente dele, ser vitorioso ou não. A verdade é que a grande floresta faz isso só para provar que, no final, é ela que sempre vencerá.
       A grande floresta não precisa dos predadores para manter sob controle seus rebanhos de herbívoros. Esta ideia é uma mentira, feita para soar que os predadores possuem o seu propósito no pulsar de vida da grande floresta. A verdade é que a grande floresta controlaria seus herbívoros sem nós, sem nenhuma dificuldade. Caso contrário, porque passamos mais tempo lutando uns contra os outros, por território, fêmeas ou qualquer motivo, do que de fato caçando algum alimento?
        Não que eu me dignasse a perguntar para a grande floresta qual papel que ela esperava que eu desempenhasse. Minha vida, como um adulto, era dedicada a espalhar sangue e enfeitar com ossos o chão da grande floresta. Era para isto o que eu vivia. Meu rugido fazia os pássaros voarem e eu corria tão rápido que era como um borrão negro na confusão de galhos e folhas que era o meu lar e então, em poucos segundos, uma mancha de sangue dava cor ao chão marrom e um macaco, uma codorna ou até um alce davam adeus á vida que lhes foi dada para voltarem a ser uma parte da terra, dos troncos, da folha e do ar.
       Eu devolvia á floresta o que lhe pertencia e tomava carne e sangue como pagamento. A condenação destes animais era cruzar o meu caminho, fazer sons para chamar minha atenção, brincarem alegres sob o sol quente sob a minha vista.
        Uma vez, um homem, uma das criaturas mais distorcidas criadas pela grande floresta, vestido de peles e com uma lança de madeira nas mãos, caminhava por entre os troncos do território que me pertencia. Seus passos faziam estalar galhos, ossos de sua roupa faziam sons de chocalho e seu cheiro de suor era forte e rançoso, seu hálito exalava o fedor de dentes podres e carregava consigo coelhos mortos, cheirando a sangue fresco e quente. Espreitei a criatura por um longo tempo e, quando ele me viu, me atacou imediatamente. Naquele dia, o homem tomou de mim um olho, mas eu tomei dele a vida. Mordi sua garganta com força, arrancando metade de seu pescoço e deixando sua cabeça pendente enquanto ele se afogava com o próprio sangue.
        O corpo humano estirado na clareira, em meu território, envolto de uma gloriosa poça de sangue, fedendo putrefação de uma forma horrível como só um ser humano é capaz de fazer, era o sinal da minha luta e de minha vitória. Afastou outras panteras e predadores de meu território por muitas luas, até que os carniceiros limpassem toda carne e deixassem só os ossos como memória da criatura que aquilo um dia fora.
      O cadáver do homem era uma boa decoração para o meu território, mas eu sabia que o que espantava os outros predadores não era o fato de eu ter tirado a vida daquela criatura, mas sim o fato de que aquela criatura era uma criatura que vivia em bandos e, eventualmente, outros viriam procurar pelo seu companheiro morto. E foi exatamente o que aconteceu: muitos vieram, todos com muitas armas, fogo e armadilhas, atentos á ameaça. Após poucas noites, o homem que tomara de mim meu olho tomou de mim, mesmo após a sua morte, o território que me pertenceu e eu fui obrigado a abandonar meu lar.
        Por muito tempo, vaguei a esmo, ferido. Moscas pousaram nos meus olhos enquanto eu dormia e eu podia ver as larvas se remexendo enquanto comiam minha carne morta, pelo canto do meu olho bom. Meu corpo começou a queimar por dentro e eu podia sentir o inchaço do meu rosto pulsando e minando pus, que se agarrava e secava aos pelos, lançando um cheiro azedo que atrapalhava meu olfato e chamava a atenção de carniceiros, que chegavam cheios de fome e fingiam estar fuçando na terra quando viam que eu ainda estava vivo. Talvez um destes viesse me atacar á noite.
        Doente e febril, procurei uma lagoa ou poça de água qualquer para tirar de mim o  mau cheiro e o calor da doença. Por fim encontrei uma pequena fonte, onde a água extremamente clara escorria pacientemente por entre as pedras e pequenos peixinhos nadavam uns com os outros e se escondiam em baixo da terra quando uma fruta, ou galho, caía na água.
      Havia uma brecha nas folhas das árvores, por onde entrava um feixe de luz do sol, fazendo visíveis os vapores da água saindo da fonte e ondulando pelo ar espesso do chão da floresta. As curvas criadas pelo vapor d’água criavam uma forma sutil de um grande felino, semelhante a uma nuvem tomando uma forma qualquer, mas com muito mais movimento e sem dissipar a imagem que ali formava.
      Ás vezes, quando nossos olhos estão bem próximos do véu que separa este mundo do outro, é possível ver de relance aqueles que já passaram para o outro lado.  É algo que pode parecer uma alucinação causada pela febre e pela fraqueza, mas mais sutil, exigindo atenção para que se perceba; diferentemente de um delírio, que salta aos olhos sem que se deseje isto. A forma eriçava meus instintos como faria um animal muito próximo tentando passar desapercebido  e me olhava com seus olhos de fumaça, mas que pesavam como duas grandes rochas.
       Sem emitir um som ou palavra, a sombra nos vapores moveu-se, andando calmamente, deu algumas voltas ao redor de si mesma com calma e se sentou. A imagem nada disse, não emitiu nenhum som ou fez algum gesto, mas sua tranquilidade diante da minha fraqueza, tão diferente de como um animal que respira se comportaria, pareceu me dizer, como uma intuição diria, que meu olho se curaria e a febre em minhas entranhas se acalmaria.
       A imagem observou-me enquanto eu pulava na fonte e tirava de mim a sujeira e os vermes de meu olho ferido. A água fria aliviou quase instantaneamente o calor dentro de mim. Um filhote jamais saberia o poder que água limpa e fresca tem sobre as doenças e ferimentos cheios de pus. Predadores grandes, como eu, não costumam morrer por conta de ataques de outros animais, mas morrem por se ferirem onde não conseguem se limpar, então bebem água suja de terra e putrefação, acabando cheio de vermes muitas vezes menores que insetos dentro de seu sangue, que os comem por dentro.  Mas a água limpa, como a daquela fonte, era uma das melhores coisas para manter a doença e os pequenos vermes afastados. Pensando bem, agora, me pergunto se a água limpa e seus vapores tinham alguma relação mais profunda com aquela imagem que se formava por entre o feixe de luz do sol e a fumaça daquela fonte.
       Mesmo após um longo tempo repondo a água de meu corpo e depois me limpando e sentir que eu estava me recuperando por conta disto, a imagem não desapareceu. Não se moveu para capturar minha atenção, esperando que eu me dignasse a observá-lo novamente. Quando eu fiz, a imagem simplesmente olhou para o alto, para as nuvens do céu e então, desta vez, se dissipou no vapor para nunca mais voltar.
      Acompanhei seu olhar e pude ver nuvens negras e cheias ao longe, cuspindo raios poderosos que não conseguiam mais segurar dentro de si. Desta vez a sombra não fez gestos que sugeriam que tudo ficaria bem. Pelo contrário, seu breve gesto de apontar o rosto para cima me causou um arrepio contrastante com a febre que eu sentia, e o mau presságio que aquele animal que já não mais respirava me deu, fez com que eu tivesse pesadelos durante toda a noite. 

Agradeço á todas as pessoas que leram meus contos. Att, R.R

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